Um dos mais respeitados jornalistas do país, Ricardo Kotscho, autor de 19 livros e ex-secretário de imprensa da Presidência da República no Governo Lula, escreveu um bom texto sobre o anonimato na rede. Reproduzo aqui parte dos argumentos do mestre.
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Uma coisa que sempre me incomodou muito na internet, mesmo antes de começar a escrever nela, é a covardia dos comentaristas anônimos, que se escondem sob pseudônimos, alcunhas, niks, apelidos, codinomes e o diabo a quatro.
Há os mais preguiçosos que se assinam simplesmente assim: “Anônimo”. Já vi blogs em que praticamente todos os comentaristas escondem suas verdadeiras identidades das mais diversas formas. Gostaria de saber: por que?
Um estudante me perguntou o que achava disso durante o debate de que participei esta manhã sobre “Caminhos da Reportagem” na Semana de Jornalismo promovida pela Faculdade Cásper Líbero.
É difícil explicar as coisas que nem entendo _ por isso, fico me perguntando. O que leva uma pessoa a gastar seu tempo emitindo opiniões o dia inteiro em blogs e se recusar a assumir a própria identidade? Tem vergonha ou medo do que escreveu?
O que eu não sabia era que a Constituição Federal de 1988 já trata destes casos, como li esta semana num texto que me enviou, para um livro que estou fazendo, o Advogado-Geral da União, o amigo José Antonio Toffoli. Diz o texto constitucional com todas as letras:
“Estabelece no Capítulo dos direitos e deveres individuais e coletivos a liberdade de manifestação do pensamento, vedado o anonimato (inciso IV do art. 5º).
“Prevê como antídoto a qualquer abuso eventualmente cometido o direito de resposta proporcional ao agravo, além da indenização pelos danos materiais ou morais à imagem (inciso V do art. 5º)”.
Será que sabem disso os que despejam anonimamente seus ataques rasteiros e preconceitos doentios na internet? Sabem eles que hoje há recursos tecnológicos para descobrir a origem das mensagens criminosas, mesmo quando anônimas, e que a Justiça já está processando e punindo seus autores?
Desde que comecei a escrever em jornal, em meados do século passado, sempre batalhei para que minhas matérias fossem assinadas, de preferência na primeira página – e eram tempos de ditadura militar, em que os jornalistas corriam muitas vezes risco de vida no exercício do seu trabalho.
Justo agora, que vivemos o mais longo período de liberdades públicas desde o final do Estado Novo, e uma avenida sem fim se abre na internet para que todos possam manifestar democraticamente suas opiniões, sem censura, não consigo entender esta febre do anonimato que se espraia pela web.
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Tenho fé que, com o tempo, todos descobrirão que é bem melhor assinar com nome e sobrenome verdadeiros porque assim tem mais valor o que a gente escreve.
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